segunda-feira, 11 de agosto de 2014

DILMA E OS EVANGÉLICOS

“Feliz é a nação cujo Deus é o senhor.”

Este salmo de David foi repetido duas vezes por Dilma numa cerimônia evangélica esta semana.

Mais uma cerimônia, aliás, depois da inauguração do Templo de Salvador.

Agora foi no Congresso Nacional de Mulheres das Assembleias de Deus Ministério de Madureira, em São Paulo.

Entendo que a frase fica melhor assim: “Feliz é a nação cujo Deus é o povo.”

Mas sigamos.

É o pragmatismo em ação. Deus é invocado, e pastores incensados, em nome dos votos.

Todos os candidatos agem assim.

Quanto há de fé e quanto há de cálculo, quanto há de sinceridade e quanto há de hipocrisia, só Deus sabe.

“Todos os dirigentes dependem do voto do povo e da graça de Deus, e eu também”, acrescentou Dilma.

Graça de Deus?

Deus ingressou espetacularmente na política moderna com o então jovem FHC quando este se candidatou a prefeito de São Paulo, em meados dos anos 1980.

Num debate na televisão, Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus.

Numa reação bizarra, FHC disse a Boris que eles tinham combinado antes que aquela pergunta não seria feita.

FHC perdeu a eleição para Jânio. Para muitos, a resposta evasiva sobre sua fé foi um fator vital na derrota.

De lá para cá, nenhum candidato a cargos importantes no país hesitou em declarar sua fé em Deus.

Nos últimos anos, o crescimento dos evangélicos tornou mais complicado esse assunto.

O problema da busca do apoio dos evangélicos não está em Deus, mas em coisas muito mais terrenas.

Você é obrigado, para merecer os votos evangélicos, a adotar em seu programa de candidato um tom francamente conservador em muitos temas sociais.

Você se torna refém do atraso e do imobilismo.

Exemplo: legalizar o aborto, nem pensar. E então ficamos na seguinte situação: para as mulheres privilegiadas, o aborto é proibido de mentirinha.

Para as demais mulheres, não.

Uma mulher de classe média, ou alta, que engravide sem querer vai a uma clínica de alto nível e faz o aborto em condições seguras e confortáveis.

Uma mulher humilde não pode arcar com a despesa de clínicas particulares. Os métodos de aborto são precários. Os riscos, enormes.

A mesma situação — uma gravidez indesejada — significa uma coisa para uma mulher com recursos. E outra coisa para uma mulher sem recursos.

É mais uma situação iníqua que se perpetua.

Num mundo menos imperfeito, Deus estaria distante das eleições, das campanhas e da política.

Quando religião e política se misturam, perdem ambas. E perde a sociedade.

Feliz a nação cujo Deus é o povo.

Paulo Nogueira
No DCM

CAMOCIM INFORMADOS

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