segunda-feira, 24 de novembro de 2014

FOLHA ESCONDE DOS LEITORES OS CINCO INQUÉRITOS CONTRA EDUARDO CUNHA

"O deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) está cotado para presidir a Câmara no próximo biênio. Ele é bem visto pelos demais deputados, pela forma que nomeia aliados e controla comissões e pelo enfrentamento à presidente Dilma. “A própria presidente fortaleceu a candidatura de Eduardo ao fazer dele um inimigo. Todos os insatisfeitos com o governo votam nele", disse para a Folha o ex-líder do governo Cândido Vaccarezza (PT-SP).

O perfi benevolente esconde dos leitores a extensa lista de inquéritos contra Eduardo Cunha, de falcatruas na Telerj, no governo Collor, a golpes na Cehab, com Antonio Garotinho e manobras de sonegação de ICMS.

Cotado para presidir a Câmara, Cunha se mantém com bancada particular

Por David Friedlander e Catia Seabra

Da Folha de S. Paulo

Ele era cabeludo e foi baterista de banda de rock na juventude. Hoje gosta de gospel. Aos 56 anos e calvo, o deputado federal Eduardo Cunha, do PMDB do Rio, levou o estilo agressivo do heavy metal para a política.

Celebridade do toma lá, dá cá no Congresso, Cunha é ídolo de parte dos colegas. Já é líder do PMDB na Câmara e agora desponta como favorito para a presidência da Casa no próximo biênio –contra a vontade do governo e de caciques de seu partido.

Os outros deputados gostam do desembaraço com que Cunha nomeia aliados para cargos na máquina federal, controla comissões que ditam o ritmo do Congresso e afronta a presidente Dilma.

"A própria presidente fortaleceu a candidatura de Eduardo ao fazer dele um inimigo. Todos os insatisfeitos com o governo votam nele", diz o ex-líder do governo Cândido Vaccarezza (PT-SP).

No Palácio do Planalto, Dilma e assessores o apelidaram de "Meu Malvado Favorito", pela frequência com que se posiciona contra os interesses do governo. É uma referência a uma animação em 3D cujo personagem principal, Gru, quer tornar-se o maior vilão da história, mas acaba se redimindo.

A força desse carioca malvado vem de uma bancada particular, que ele lidera e manobra, com pelo menos 50 fiéis seguidores, alguns de outros partidos.
Rumo a seu quarto mandato na Câmara, Cunha cultiva essa lealdade com favores de todo tipo. De ingressos para jogos de futebol no Rio a ajuda financeira para campanhas dos aliados.

O executivo de uma grande empresa disse à Folha que este ano recebeu de Cunha pedido para fazer doações a um grupo de 20 a 30 candidatos a deputado, a maior parte do Rio, de Minas Gerais e do Nordeste.

Foi assim que o líder do PMDB montou "uma cadeia de agradecimentos" dentro do Congresso, segundo o executivo, que não quis ter seu nome publicado nem contar a quantos indicados de Cunha deu dinheiro.

A lista de beneficiários inclui até rivais que já lhe fizeram oposição dentro do partido, como os deputados Gastão Vieira, do Maranhão, e Renan Filho, de Alagoas.

Renan ganhou a presidência de uma comissão que cuidou da Copa. Gastão recebeu R$ 300 mil para sua campanha. "Ele ajudou todo mundo", afirma o parlamentar.

Cunha conta que boa parte das doações que recebe são feitas por empresas que ele defende no Congresso "quando há afinidade nas propostas". Muito procurado por grandes companhias, faz adendos em medidas provisórias e trabalha para agilizar a aprovação ou a derrubada de leis.

"Este ano não tive dificuldade para captar. Até sobrou dinheiro na minha campanha", diz Cunha. "Na maioria das vezes são as empresas que me procuram. Até porque tenho a mesma visão delas".

Este ano, o líder do PMDB recebeu R$ 6,8 milhões dos bancos Bradesco, BTG Pactual, Safra e Santander, e de empresas como Vale, Ambev e Coca-Cola.

COPACABANA PALACE

Casado pela segunda vez, com cinco filhos, Cunha gosta de bons restaurantes, charutos e vinhos. Mora num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio, e passa a semana num apartamento da Câmara em Brasília.

Afirma ser dono de duas salas comerciais no Rio. A mulher, Cláudia, tem mais três apartamentos "comprados com dinheiro dela", diz.

Quem o conhece de perto conta que é apegado à família. Em 2011, no casamento de uma de suas filhas, deu uma festa para 500 convidados no Copacabana Palace, um dos mais tradicionais do Rio.

"Paguei R$ 40 por um hambúrguer no Copa", reclama o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).

No aniversário de 55 anos, em 2013, Cunha ganhou dos filhos uma bateria Ludvig. Foi um presente para relembrar os tempos de juventude, quando tinha um grupo de rock com os amigos.

Ele conta que tocava bateria, era o letrista da banda e comprava instrumentos usados para reformar e depois revender. Ouvia muito Led Zepellin e Pink Floyd. Hoje, prefere música gospel.

O deputado tornou-se evangélico há 15 anos. No momento, está deixando a igreja Sara Nossa Terra para se juntar à Assembleia de Deus. No Congresso, defende posições conservadoras. É autor de legislações antiaborto, contra a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Diz que costuma frequentar cultos em lugares diferentes aos domingos, para orar e falar de política. Também faz duas inserções diárias de um minuto na rádio Melodia, líder de audiência no Rio.

Cunha começou a trabalhar aos 14 anos. Foi office-boy e corretor de seguros. Formado em economia, virou operador do mercado financeiro.

Uma de suas características mais marcantes é o domínio dos temas nos quais se envolve. Para ajudar as empresas que o procuram, Cunha costuma instalar aliados em postos-chave das comissões que tratam do assunto em debate.

Atuou diretamente em temas do interesse de grandes companhias, como o Marco Civil da Internet, a nova lei dos portos e a medida provisória que mudou a tributação sobre os lucros das multinacionais brasileiras no exterior. Em todos os casos, conseguiu garantir regras que agradaram parte das empresas interessadas e contrariaram o governo.

Alguns empresários e executivos disseram à Folha que o deputado pede ajuda financeira, mesmo fora do período eleitoral, para apoiar as reivindicações corporativas.

"Perguntar isso é até uma ofensa. É claro que não. O que recebo é contribuição de campanha das empresas com que me relaciono. Eu tenho sangue de mercado, não precisam me convencer de suas reivindicações", diz ele.

A esperteza de Eduardo Cunha ficou evidente já na sua estreia na política, na campanha de Fernando Collor à presidência, em 1989.

Pouco antes da eleição, o apresentador Silvio Santos decidiu concorrer pelo nanico PMB e assustou os demais candidatos. O deputado descobriu uma falha no registro do PMB que inviabilizou a candidatura de Silvio.

Como recompensa, foi indicado por PC Farias para a presidência da Telerj, a estatal de telefones do Rio.

O favoritismo na disputa pelo comando da Câmara dos Deputados em 2015 mexeu com os adversários, que passaram revirar a biografia de Cunha para resgatar suspeitas de irregularidades que o acompanham desde os governos Collor e do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho.

"Podem escarafunchar quanto quiserem, não tenho nada a esconder", diz. "Estou bem na disputa da Câmara porque os deputados querem alguém que os entenda e não um presidente submisso às vontades do governo."

Jornal GGN
CAMOCIM INFORMADOS

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